A ambição masculina: virtude ou alerta?

A ambição, em si, é uma virtude? A ambição masculina é encorajada e admirada em nossa cultura?

Em meu romance, A garota napolitana, a protagonista Nina conhece Marcos quando ambos cursam Jornalismo. Começam a namorar, e, em pouco tempo, ele define seus objetivos: quer ser âncora de um jornal da BBC, por isso, não quer ter filhos, e é irredutível. Prioriza sua carreira, em detrimento dos objetivos de Nina, que ainda estão sendo contornados.

Ela não reage, apenas engole sua raiva, ácida e silenciosa, afinal, o mundo sempre foi dos homens.

Esse trecho específico do romance ocorre no início dos anos 2000, quando o feminismo, enquanto arsenal de diálogo e mobilização, ainda estava saindo das fronteiras acadêmicas. Também por esse motivo, a angústia de Nina não encontrava respaldo externo. A quase ausência de linguagem social (machismo estrutural, violência simbólica, abuso emocional disfarçado de cuidado) a deixava no escuro.

Embora esse escuro tenha diminuído, 25 anos depois, a ambição masculina ainda é admirada e endossada. Os homens, de maneira geral, defendem sua reputação, seu status, sua posição social, mesmo que a base dessas conquistas esteja sedimentada em diversas violências instituídas.

Será que ainda acreditamos que os homens são mais importantes, mais competentes, mais inteligentes?

As mulheres ainda engolem a raiva silenciosa? Nós ainda carregamos a crença de que o poder masculino consiste em desbravar o mundo, e cabe às mulheres cuidarem desse legado e manterem a vida doméstica em ordem?

O que vc pensa sobre isso?

Todo o tempo do mundo

Durante uma licença médica, em 2014, resolvi uma pendência impregnada no tecido embaraçado do meu cotidiano: dar uma solução para meus relógios, no sentido existencial e prático.

Existencial porque minha devoção à pontualidade e à importância das horas me assusta; conheço e desconheço esse ser britânico que me obriga a manter um relógio no pulso como se já fizesse parte de minha anatomia, me faz chegar sempre adiantada e constatar, toda vez que alguém atrasa, que o projeto ser humano fracassou.

Prático porque ninguém precisa ter mais de um relógio, já que sua função é simplesmente fornecer as horas. Pois bem, descobri, um tanto quanto espantada, que possuía oito relógios, e nutria um carinho imenso por cada um deles. Com muito esforço, tentando mergulhar meu ser no desapego, consegui me desfazer de dois.

 Quanto aos outros, precisavam de bateria. Determinada a usá-los, os enfiei em minha bolsa, tendo em mente uma relojoaria perto de casa. Mas, no meio do percurso, avistei uma loja pequena, sem nome. O tipo de loja difícil de encontrar, carregada de história, corajosamente resistente à impessoalidade moderna.

Havia alguns relógios bem antigos nas vitrines, e, quando entrei, me senti imersa no maravilhoso mundo da ordem. Meus olhos se deslumbravam com tantos modelos disponíveis, até que um homem caminhou em minha direção, um senhor japonês, um pouco curvado e sério, muito sério. Coloquei os relógios no balcão e pedi que ele trocasse as baterias.

Sem perder tempo, sem bom dia, começou sua missão, manipulando seus instrumentos com a graciosa precisão dos japoneses, tão habituados a recolher e fazer florescer os detalhes miúdos, as peças/chips que inundaram o mundo, a tecnologia de ponta que muitas vezes não vemos, mas que nos orientam, nos mantém em órbita. Observando seus gestos, percebi que meu ser britânico interior estava satisfeito, acolhido e respeitado por tanta austeridade. Ali ele cresceria, criaria asas, esticaria suas garras e me envolveria no conforto estático de uma existência previsível. 

No entanto, contrariando a lógica apolínea daquela atmosfera, duas coisas me absorveram e transformaram meu olhar: a luz da manhã inundando a loja com uma fome suave, varrendo os vestígios da noite, prometendo mais do que o começo do novo dia, prometendo uma alegria sem nome, afirmando que tudo é novo e inconstante e que o conforto reside justamente no tempo e no espaço que já doei (e continuo doando) à minha alma, pra que ela seja o que quiser/precisar ser.

E aquela luz se tornava mais potente, mais densa, sem perder a suavidade, ao ser conduzida pela voz visceral de Edith Piaf, sim, ela mesma! Era dela que ele gostava, era ali que residia sua maravilhosa contradição: a passionalidade daquela voz não cabia naquela loja sóbria e nem no semblante nublado do dono. Compreendi tudo isso, aliás mais do que isso, mais do que consigo derramar em palavras, e essa compreensão me alcançou depois de uma felicidade absoluta que senti por estar ali, o que me fez olhar para ele e sorrir, um sorriso puro, triunfante, um convite imprudente à sua cumplicidade, para que nossos mundos e nossas contradições se tocassem, para que aquele instante fosse fundador. Ele me encarou, um olhar sem muita curiosidade, e nenhum músculo do seu rosto se mexeu. Nenhum! 

Continuei sorrindo, de mim, da vida. Depois de alguns minutos, ao trocar uma das pulseiras, no momento em que ele ia pegar uma preta, igual à original, apontei para outra, lilás. Ele me avisou, ainda sem qualquer curiosidade, que a lilás era mais cara. Tudo bem, respondi com simplicidade, com o sorriso já recolhido.

E recolhi também minha vontade de dizer: quero a lilás porque preciso de cores e movimento e renovação em minha vida, porque o britânico que mora dentro de mim na verdade ocupa um espaço pequeno, porque meu ser caótico é aquele que cria, que tenta compreender o mundo, colocar-se honestamente nele, porque me alimento de arte, porque, de vez em quando, com uma saudade ligeiramente triste de paisagens parisienses, ouço Edith Piaf, e ela canta chorando, canta sorrindo, canta gritando, com a alma do avesso, exatamente como ela canta em sua loja, impulsionada pela luz da manhã.

E foi dessa forma que consegui diluir minha questão existencial com os relógios: sempre soube que nunca precisei de tantos.

E, se o senhor japonês um dia quiser me contar sua história, terei todo o tempo do mundo para ouvi-lo.

A garota napolitana – um mês de vida!

Com muita alegria, comemoro um mês de lançamento do meu primeiro romance.

Tem sido uma travessia deliciosamente vertiginosa, feita de aprendizados, grandes alegrias e desafios.

A maior alegria é, sem dúvida, saber que 19 pessoas acreditaram em minha história e dedicaram seu tempo para desbravarem o universo da protagonista Nina, e apreender como seus conflitos ressoam em cada um.

Por isso, acredito que a escrita tem uma função coletiva. O processo criativo geralmente é bastante solitário, exige uma dedicação que faz o mundo externo desaparecer, e mobiliza diversas energias internas, memórias, sensações, paisagens inexploradas.

Mas, quando as palavras ganham um corpo, a solidão se desfaz. E essa sensação de ter o mundo preenchido por outras vozes, vidas e dramas me ajudou a me constituir como ser humano, redefinindo os contornos da minha existência. A leitura me fez compreender que eu jamais estaria sozinha.

Nina carrega pedaços de cada um de nós, porque somos feitos de recuos, silêncios, anseios, aprendemos a caminhar, mesmo quando contundidos, e sentimos uma fonte limpa e secreta em algum lugar em nossa alma que nos impulsiona a tentar existir plenamente.

Te convido, carinhosamente, a mergulhar nessa história!

Todas as informações sobre o livro e as crônicas que já escrevi sobre ele estão no menu.

Que A garota napolitana ainda abrace muitos leitores, e que a escrita continue provocando, propondo e rompendo fronteiras!

Minha primeira crônica

Considero essa crônica o marco fundador do eu/escritora.

O ano era 1993, eu tinha 13 anos, quando comecei a experimentar as palavras.

Sobre ela, meu olhar de hoje, 32 anos depois, gosta do tom ingênuo, idealista, como uma matéria bruta que que seria modelada por muitas forças e vozes, nem todas generosas.

Mas a urgência em preservar o encantamento pela vida permaneceu.

O Sol

Sou como a chuva, que nasce no céu e morre no estalo do chão, sem rumo e muitas veze sem futuro.

Ou como o sol, que existe por não ter onde depositar tanto calor e disposição. E ainda como a lua, mãe da experiência, e seus filhos são as estrelas que brilham com tanta intensidade que às vezes assusta.

Sou como um pássaro, e suas asas são minha fonte de inspiração.

Minha alegria é ser livre, porque ser livre é ser justo, com a alma pura.

Sou meu espelho, e tento me refletir até chegar à conclusão de que sou perfeita, mas essa perfeição não será usada para provar que sou capaz, e sim para me trazer conforto na alma e paz no coração.

A garotinha Bianca Lunna, em 23/09/1993.

Um sonho realizado

Escrevo há trinta e dois anos. Minha primeira crônica, O sol, nasceu quando eu tinha 13. É a primeira experimentação no universo da escrita, o primeiro mergulho nas águas vertiginosas que me curaram por todos esses anos.

Por diversas razões, principalmente internas, esse sonho foi adiado, o que me faz pensar na substância de que são feitos: não há um caminho linear, nem uma fórmula mágica, e sim renúncias, recuos, medos, pequenas alegrias, fagulhas indecisas e pressões externas, muitas vezes corrosivas (e covardes).

Aos 14, usei as palavras para começar a esboçar minha identidade, quando escrevi uma crônica poética, não por acaso chamada Poesia:

…Ergueram prisões, manicômios e distribuíram títulos hilários para os que ainda ousam. Para os ditos poetas. Quando seres humanos condenados e pecadores, impulsionados pelo quase possível, injetam na alma uma só dose de liberdade, não sabem mais como construir muros que limitem a existência absoluta. Eles se movimentam, dançam. Criam.

Esse anseio pelo desconhecido, pelo avesso, pela liberdade (um mistério sempre deglutido até a exaustão), me levaria a experimentar outras linguagens e formatos: contos, poesias, romances. Não, a A garota napolitana não é meu primeiro romance escrito, e sim o primeiro que cometeu a ousadia de conhecer o mundo.

Até mesmo em minha vida acadêmica, enquanto socióloga, essa experimentação e esse anseio me guiavam: ainda no colégio, escrevi uma dissertação sobre A servidão voluntária, analisando a obra de Étienne de La Bóetie e a filosofia sartreana. Na graduação, escolhi o autor Henry Miller para debater o sexo como subversão, um trabalho que deve ser revisto a partir do meu olhar mais maduro sobre sua obra. Por fim, em meu Mestrado, defendido em 2011, fiz um estudo de campo dos Saraus Periféricos como possibilidades de democratizar o espaço urbano segregado.

Em tudo o que escrevi, há um apelo para que vozes marginalizadas sejam ouvidas, para que os indivíduos, em suas jornadas, encontrem maneiras de enfrentar as estruturas de poder, para que as mulheres sejam protagonistas de suas lutas e de suas dores, as dores silenciosas e dilacerantes que poucos querem ouvir e validar.

O romance A garota napolitana carrega toda essa carga emotiva, intelectual, filosófica e existencial. Mas carrega, principalmente, o anseio daquela garotinha de 13 anos que se apoderou de uma porção mágica feita de letras, sílabas, palavras, sentenças, e que sabia que veio ao mundo para contar histórias.

Porque histórias entrelaçam almas, e almas entrelaçadas criam novos mundos.

Você pode ouvir A garota napolitana

Vem aprontar comigo:

Em meu romance, A garota napolitana, a música é uma personagem especial, a ponte que une os protagonistas, Nina e André. Eles se amam, mas suas vivências e acontecimentos trágicos os afastam.

Dizem que a música é a linguagem universal do amor, e tem o poder mágico de criar e estreitar afetos. E quando ela se entrelaça com a escrita, expandindo a experiência de descobrir a Nina?

Por isso, criei uma playlist com todas as músicas que aparecem no romance, e te convido para sentir essa história.

E a brincadeira é:

Pra quem já leu, vai poder “reler” a história, sentindo o que cada música significa para Nina e André.

Pra quem ainda não leu, é o aquecimento pra te inspirar a começar a jornada.

A trilha sonora e o link para buscar A garota napolitana estão aqui: https://linktr.ee/bianca.lunna

Gosta da ideia?

Me conta!

Lançamento: A garota napolitana

Meu romance nasceu no dia 11 de setembro de 2024. E jorrou. No dia 11, estava chorando e se debatendo como um recém-nascido.

Mas o choro era de alívio.

Ansioso, tentou andar, falar, dançar. Para tornar sua dança harmoniosa, comecei a lapidação, e foi um processo intenso: às vezes, doloroso como uma cirurgia sem anestesia, outras vezes, me senti abraçada pela doçura de um começo.

Após mergulhar nos meandros do mercado literário, que, por si só, rende uma tese, decidi me tornar autora independente. Então, começou uma aventura vertiginosa.

Adendo importante: precisei ser social media, diagramadora e designer, dando conta de todos os processos e detalhes que, quando resolvidos, revelavam outros.

Optei pelo formato e-book via Amazon, decisão que fez minha versão escritora de 20 anos torcer o nariz, porque, sejamos justos: ela queria cheirar o livro, niná-lo no peito, autografá-lo. Mas expliquei pra ela que os tempos mudaram, e que certos sonhos podem ser ajustados sem perderem sua beleza.

Esse formato trouxe surpresas inesperadas: programas de formatação gratuitos, publicação sem custo inicial, grande alcance. Porque, convenhamos, lançar um livro físico exige um investimento considerável.

E há também o apoio sempre bem-vindo das pessoas que vivem esse sonho comigo, porque acreditam no poder da arte verdadeira, que precisa brotar e reverberar.

Acredito que a escritora de 20 anos está satisfeita. A de 45 aprendeu que jamais devemos negligenciar o que pulsa dentro de nós, o que pede para existir.

Finalmente, A garota napolitana existe, e está te esperando!

Me contem como foi o seu encontro com a Nina, e uma avaliação lá na Amazon faz toda a diferença.

Um abraço carinhoso!

Como minhas histórias nascem

Escrever, pra mim, é um deslocamento para outro mundo, ávido, às vezes arenoso, e sempre surpreendente.

Pensando em minha trajetória, lembro com nostalgia dos meus primeiros esboços, lá nos anos 90, usando uma máquina de escrever do meu avô. Havia uma magia, uma dança com o desconhecido, e me apaixonei incondicionalmente por essa magia e por essa dança.

Porque elas sempre alimentaram minha alma.

Escrever, também, é um apelo, um grito, uma tentativa de resistência, de estabelecer uma voz, sussurrada e guiada pelos personagens.

Meu processo criativo sempre foi intuitivo, mas, atingindo certa maturidade, passei a compreender todas os vetores emocionais que quem escreve mobiliza, e despeja: memórias, emoções, dores, alegrias, referências, pesquisas, embates internos… E cansa.

Mas é um cansaço bom, como quando passamos um dia em um parque com pessoas queridas e dormimos exaustos e felizes.

Minhas histórias nascem porque o motor que me move é um desejo genuíno de pensar e tentar germinar um mundo melhor, mais humano, mais justo e menos violento.

E a imaginação é o primeiro movimento em direção à liberdade.

Por isso, me sinto muito feliz em compartilhar A garota napolitana com você!

Continue acompanhando, o lançamento vai ser em breve!

Escrever sobre traumas e dores secretas: equilíbrio e delicadeza

A ficção é um lugar relativamente seguro para criarmos e recriarmos a realidade, como um espelho mágico que nos revela outros ângulos de nós mesmos.

Em meu romance, A garota napolitana, abordo temas sensíveis, como bullying, suicídio, xenofobia e assédio sexual. São dores silenciosas que os personagens carregam, e que modelam, de forma inconsciente, seus comportamentos e escolhas.

Para mim, o desafio foi encontrar uma maneira de fazer com o que o leitor sentisse essas dores, mesmo quando submersas, por isso, meus personagens falam – e gritam – nas entrelinhas, nos gestos, nas renúncias.

Um aspecto da trama que me tocou foi o fato de que o bullying, durante a década de 90, onde acontece um trecho da história, não era abordado com seriedade, era visto como uma brincadeira, e esse silenciamento fazia com que as vítimas carregassem suas dores silenciosas, ou até mesmo se sentissem responsáveis pelo que sofreram.

O que você pensa sobre isso?

Vamos conversar.

Deixe um comentário.

A garota napolitana: sobre amor, traição, escolhas

Alguns temas universais, como paixão, amor e traição, são tratados em meu romance.

E, refletindo sobre eles, parto de alguns pontos:

– Quando somos jovens, nos apaixonamos e amamos com mais intensidade? Entregamos tudo? E queremos tudo?

– Quando uma história de amor não se realiza, nos tornamos amargos? Incompletos?

Nina, a protagonista, ama André, mas luta contra e a favor desse amor, refém dos seus conflitos internos. Durante a faculdade de jornalismo, se relaciona com Marcos, que almeja uma carreira grandiosa como correspondente político no exterior. Ele é, a princípio, um porto seguro, confortável e previsível. Aos poucos, ele descobre que Nina e André têm um passado mal resolvido e carregado de tensão.

Seria uma espécie de triângulo amoroso? Nina e Marcos estão imersos em um jogo de sombras e silêncios, o que me leva a mais especulações:

– Em nossos relacionamentos amorosos, o que nos proíbe de confrontar, descobrir a verdade, e, a parti dela, agir? Carência? Medo de perder? Porque é melhor ter uma pessoa pela metade do que não ter nenhuma?

E, o principal: estar sozinho(a) significa não ter nada?

Existe, em nossa cultura, uma imposição da romantização, que recai sobre a mulher de maneira agressiva. Certamente, você já ouviu essas frases, sobre uma mulher solteira:

Vai ficar para titia! Seu problema é falta de homem. Se está solteira, tem algum problema. Não tem que escolher demais.

Essa pressão externa seria uma força que submete a mulher a um relacionamento ruim?

Vou parar por aqui, porque é um assunto que dá pano pra manga, mas podemos continuar essa prosa.

Me conta, o que você pensa sobre isso?