Por que escrevo?

Escrever é uma fome irracional.

Traduzir o impossível em linguagem requer um desejo quase doloroso de atravessar todas as barreiras do não dito.

Não acho que o ato de criar seja uma aventura, porque quem escreve é conduzido pela necessidade de construir, tijolo por tijolo, uma estrutura equilibrada na vontade pura. Em um corpo flexível.

E o que não cabe nessa criação rasga as veias desse corpo.

Escrever é solitário por germinar a vida, um fim em si mesmo, que torna possível a descoberta do horizonte.

Um silêncio foi parido, um ser vivo foi criado.

E então, o leitor desnuda o óbvio e absorve a promessa de vida, de luta e de encantamento.

Por isso, criar é um milagre.

09/04/1997

Quando eu encontrar o amor…

Vou me curar.

A pessoa que me amar vai varrer todas as feridas e cicatrizes da minha alma.

Vou renascer, zerar meu passado, e terei todas as minhas necessidades supridas. Nós dois seremos um só.

Será?!

Sou de uma geração de mulheres que cresceu acreditando em príncipe encantado, bombardeada de estímulos incessantes: desenhos da Disney, comédias românticas, os famosos romances açucarados… Esse ser mágico, perfeito, portador de todas as respostas, que nasceu pronto, nos faria felizes para sempre.

Em algum momento da minha jornada, uma pergunta crucial me atravessou: e se eu tentar me salvar? E se eu construir autonomia sobre meus desejos e necessidades, e entender a relação romântica como um complemento, capaz agregar novos elementos à minha existência, feita de diversas texturas e cores, e não ser a razão da minha existência?

Nós, mulheres, sabemos como funciona: temos que estar prontas para quando ele chegar, atentas às suas necessidades e demandas, e supri-las. Sempre arrumadas, enfeitadas, até mesmo dóceis, afinal, a mocinha conquista e seduz pela sua alma alegre, sua disponibilidade infinita, sua natureza maleável.

Isso não quer dizer que não acredito no amor. Mas quando ele se transforma em ideal a ser alcançado, de maneira padronizada, descartando nossas nuances, medos, recuos, e no caso das mulheres, o protagonismo sobre nossas escolhas, merece um sinal de alerta.

Enquanto escritora, tentei criar uma história de amor mais humanizada, porque A garota napolitana, meu romance de estreia, é também, sobre o amor entre Nina e André.

Mas não se engane: para além dessa padronização, a jornada deles coloca em evidência justamente a humanidade de cada um, e, principalmente, o que interdita uma entrega impulsiva, ou previsível, onde tudo se encaixa perfeitamente.

Como minha primeira e sensacional leitora Amanda Gonzaga afirmou: O romance dela com André não é o principal fator. O amor deles vai ser uma consequência dela ficar bem.

E por que Nina tem que ficar bem? Por que ela é uma mulher que, como todas nós, foi vítima de diversos tipos de violência. Por isso, como aconteceu comigo, em algum momento da sua história, ela percebe que é responsável pela sua existência, e inverte o jogo: ela não tem que ser amada por um homem para ser curada, ela tem que aprender se curar para amar.

E você, ainda acredita em amor romântico como salvação?

A ambição masculina: virtude ou alerta?

A ambição, em si, é uma virtude? A ambição masculina é encorajada e admirada em nossa cultura?

Em meu romance, A garota napolitana, a protagonista Nina conhece Marcos quando ambos cursam Jornalismo. Começam a namorar, e, em pouco tempo, ele define seus objetivos: quer ser âncora de um jornal da BBC, por isso, não quer ter filhos, e é irredutível. Prioriza sua carreira, em detrimento dos objetivos de Nina, que ainda estão sendo contornados.

Ela não reage, apenas engole sua raiva, ácida e silenciosa, afinal, o mundo sempre foi dos homens.

Esse trecho específico do romance ocorre no início dos anos 2000, quando o feminismo, enquanto arsenal de diálogo e mobilização, ainda estava saindo das fronteiras acadêmicas. Também por esse motivo, a angústia de Nina não encontrava respaldo externo. A quase ausência de linguagem social (machismo estrutural, violência simbólica, abuso emocional disfarçado de cuidado) a deixava no escuro.

Embora esse escuro tenha diminuído, 25 anos depois, a ambição masculina ainda é admirada e endossada. Os homens, de maneira geral, defendem sua reputação, seu status, sua posição social, mesmo que a base dessas conquistas esteja sedimentada em diversas violências instituídas.

Será que ainda acreditamos que os homens são mais importantes, mais competentes, mais inteligentes?

As mulheres ainda engolem a raiva silenciosa? Nós ainda carregamos a crença de que o poder masculino consiste em desbravar o mundo, e cabe às mulheres cuidarem desse legado e manterem a vida doméstica em ordem?

O que vc pensa sobre isso?

Você pode ouvir A garota napolitana

Vem aprontar comigo:

Em meu romance, A garota napolitana, a música é uma personagem especial, a ponte que une os protagonistas, Nina e André. Eles se amam, mas suas vivências e acontecimentos trágicos os afastam.

Dizem que a música é a linguagem universal do amor, e tem o poder mágico de criar e estreitar afetos. E quando ela se entrelaça com a escrita, expandindo a experiência de descobrir a Nina?

Por isso, criei uma playlist com todas as músicas que aparecem no romance, e te convido para sentir essa história.

E a brincadeira é:

Pra quem já leu, vai poder “reler” a história, sentindo o que cada música significa para Nina e André.

Pra quem ainda não leu, é o aquecimento pra te inspirar a começar a jornada.

A trilha sonora e o link para buscar A garota napolitana estão aqui: https://linktr.ee/bianca.lunna

Gosta da ideia?

Me conta!

Lançamento: A garota napolitana

Meu romance nasceu no dia 11 de setembro de 2024. E jorrou. No dia 11, estava chorando e se debatendo como um recém-nascido.

Mas o choro era de alívio.

Ansioso, tentou andar, falar, dançar. Para tornar sua dança harmoniosa, comecei a lapidação, e foi um processo intenso: às vezes, doloroso como uma cirurgia sem anestesia, outras vezes, me senti abraçada pela doçura de um começo.

Após mergulhar nos meandros do mercado literário, que, por si só, rende uma tese, decidi me tornar autora independente. Então, começou uma aventura vertiginosa.

Adendo importante: precisei ser social media, diagramadora e designer, dando conta de todos os processos e detalhes que, quando resolvidos, revelavam outros.

Optei pelo formato e-book via Amazon, decisão que fez minha versão escritora de 20 anos torcer o nariz, porque, sejamos justos: ela queria cheirar o livro, niná-lo no peito, autografá-lo. Mas expliquei pra ela que os tempos mudaram, e que certos sonhos podem ser ajustados sem perderem sua beleza.

Esse formato trouxe surpresas inesperadas: programas de formatação gratuitos, publicação sem custo inicial, grande alcance. Porque, convenhamos, lançar um livro físico exige um investimento considerável.

E há também o apoio sempre bem-vindo das pessoas que vivem esse sonho comigo, porque acreditam no poder da arte verdadeira, que precisa brotar e reverberar.

Acredito que a escritora de 20 anos está satisfeita. A de 45 aprendeu que jamais devemos negligenciar o que pulsa dentro de nós, o que pede para existir.

Finalmente, A garota napolitana existe, e está te esperando!

Me contem como foi o seu encontro com a Nina, e uma avaliação lá na Amazon faz toda a diferença.

Um abraço carinhoso!

Como minhas histórias nascem

Escrever, pra mim, é um deslocamento para outro mundo, ávido, às vezes arenoso, e sempre surpreendente.

Pensando em minha trajetória, lembro com nostalgia dos meus primeiros esboços, lá nos anos 90, usando uma máquina de escrever do meu avô. Havia uma magia, uma dança com o desconhecido, e me apaixonei incondicionalmente por essa magia e por essa dança.

Porque elas sempre alimentaram minha alma.

Escrever, também, é um apelo, um grito, uma tentativa de resistência, de estabelecer uma voz, sussurrada e guiada pelos personagens.

Meu processo criativo sempre foi intuitivo, mas, atingindo certa maturidade, passei a compreender todas os vetores emocionais que quem escreve mobiliza, e despeja: memórias, emoções, dores, alegrias, referências, pesquisas, embates internos… E cansa.

Mas é um cansaço bom, como quando passamos um dia em um parque com pessoas queridas e dormimos exaustos e felizes.

Minhas histórias nascem porque o motor que me move é um desejo genuíno de pensar e tentar germinar um mundo melhor, mais humano, mais justo e menos violento.

E a imaginação é o primeiro movimento em direção à liberdade.

Por isso, me sinto muito feliz em compartilhar A garota napolitana com você!

Continue acompanhando, o lançamento vai ser em breve!

Sou filha do tato

Tocar sempre foi imperativo em mim. Tocar nas palavras, na textura da pele das coisas, na profundidade dos sentimentos, na ferida, nos mistérios, na areia, no incerto, no duvidoso, nos espinhos…
Tocar outra pele, pedindo redenção. Em lugares inusitados, terrenos inexplorados, fagulhas de desejo, reinos esquecidos. Tocar na dor com punhos armados, na alegria com uma suavidade medrosa, no silêncio pleno, na fonte das lágrimas, no mar, nos segredos, no solo, nos frutos, na semente.

Transmitir uma solidão hesitante por meio do toque, um toque tão faminto que às vezes se faz bruto.

Tocar com suavidade na suavidade dá medo. É preciso uma preparação interna. Tocar na verdade sempre me deixou silenciosamente louca. A verdade cavada com um desespero ancestral. A verdade dos fatos, a verdade que encerra a vida, a verdade que prevalece por trás da hipocrisia, que se enfeita de demônio, envernizada por nossa covardia, nessa eu sempre toquei com brutalidade, embora eu nunca tenha conseguido retê-la.
Na felicidade, confesso que algumas vezes a toquei com luvas. Por um desejo desesperado de mantê-la ilesa.