Por que escrevi uma série?

Para responder essa pergunta, preciso percorrer os meandros misteriosos do processo criativo.

De certa forma, A garota napolitana já estava pronta dentro de mim, esperando para emergir. Desde quando? Não sei. Cada fio narrativo foi se costurando em silêncio, formando um emaranhado de perguntas, reflexões, vivências e observações.

O personagem nasce e, por um tempo, permanece um mistério. Por isso, provavelmente vou passar a vida inteira tentando compreender a complexidade de Nina, A garota napolitana, e das mulheres que caminham ao lado dela.

Porque elas também nasceram. Menos explosivas, talvez, mas igualmente insistentes. Nina foi finalizada em setembro de 2024, como já contei em outros textos. Enquanto eu a preparava para o mundo, em versão e-book e de forma totalmente independente, a necessidade de continuidade começou a me atravessar, como uma sede irrefreável.

As ideias foram esboçadas de maneira hesitante, mas, entre junho e julho de 2025, Tessa e Cintia jorraram. Foram essas mulheres e suas jornadas que me impulsionaram a construir um universo em torno de suas vidas, dilemas e batalhas.

Há também um fio condutor especial, a banda fictícia Selvagens Inocentes, que simboliza minha paixão pela música e as transformações profundas que ela sempre me ofereceu.

No meu blog, você encontra um resumo de cada volume da série As Garotas.

E, ao buscar A garota napolitana na Amazon, poderá degustar o primeiro capítulo do próximo lançamento, A garota russa.

Obrigada por entrar comigo nesse universo!

A garota napolitana – 4 meses de lançamento!

Faz apenas 4 meses que decidi me assumir como escritora. 

A garota napolitana não é o primeiro romance que escrevi, mas sim o primeiro que publiquei. Antes dele, escrevi 6 romances, e, depois dele, mais 2. Mas esse é assunto para outro texto. 

Dia após dia, meu romance segue conquistando novos leitores, paquerando os indecisos, e convidando para o diálogo.

Nina é uma mulher que se expõe de maneira vulnerável, criando pontes afetivas com nossos dilemas e conquistas.

Agradeço aos maravilhosos leitores e a quem decidir dar uma chance para Nina!

Deixo abaixo duas resenhas especiais: Lara Nacht, minha irmã de coração, ser lida por você é uma alegria que não cabe em mim.

E a fabulosa Roberta Couto, que sempre me inspira com seu olhar poético sobre o mundo.

Nina segue reverberando.

E teremos novidades! Aguardem!

Penso, logo…

O pensador René Descartes é o autor da famosa frase: Penso, logo existo.

Na obra O discurso do método, ele lançou as bases do cartesianismo. Em 1637.

Em minhas andanças, encontrei algumas inscrições que fazem uma releitura interessante dessa frase.

A arte urbana subverte a filosofia clássica.

Pra quem não sabe, desde 2013, registro as inscrições em espaços públicos, as Grafias Visuais. E essa arte tem um potencial imenso: a subjetividade transborda, convida, provoca!

É a arte da brecha em seu estado puro!

Me conta o que achou!

Por que escrevo?

Escrever é uma fome irracional.

Traduzir o impossível em linguagem requer um desejo quase doloroso de atravessar todas as barreiras do não dito.

Não acho que o ato de criar seja uma aventura, porque quem escreve é conduzido pela necessidade de construir, tijolo por tijolo, uma estrutura equilibrada na vontade pura. Em um corpo flexível.

E o que não cabe nessa criação rasga as veias desse corpo.

Escrever é solitário por germinar a vida, um fim em si mesmo, que torna possível a descoberta do horizonte.

Um silêncio foi parido, um ser vivo foi criado.

E então, o leitor desnuda o óbvio e absorve a promessa de vida, de luta e de encantamento.

Por isso, criar é um milagre.

09/04/1997

Eu, Nina, a protagonista, te convido a comemorar comigo!

Olá, eu sou a Nina! A garota napolitana.

Faz exatamente 3 meses que minha história encontrou leitores. Isso me causa espanto, no melhor sentido, porque fiquei me perguntando se minha vida é interessante ao ponto de se tornar um livro.

Fiz uma breve reflexão, usando meu olhar jornalístico, e concluí que sim, não porque eu tenha uma vida extraordinária, mas porque podemos nos reconhecer naquilo que temos de vulnerável, nas nossas dores e alegrias.

Acredito também que podemos dialogar sobre questões difíceis, como a aversão a quem é diferente, relacionamentos tóxicos, machismo…

Escrevo pra vocês do ano de 2005, e muitas pessoas debatem um ponto importante: será que o avanço tecnológico e a internet podem ampliar nossa visão de mundo, ou estou sendo ingênua?

Não quero ser pessimista, porque é um momento para celebrar. Então, agradeço a todas as pessoas que mergulharam em minha história, se sentiram tocadas e toparam dialogar.

E, pra quem ainda não conhece, peço uma chance, porque sei que tem um pedaço seu em minha jornada.

Aliás, aos três meses, um bebê começa a sorrir.

Devo isso a vocês.

Um abraço,

Nina.

A artista emerge

 15 de agosto de 2025, o arquivo está pronto, formatado, o romance A garota napolitana foi revisado exatamente 18 vezes, é só apertar um botão.

Só?!

No exato momento em que fiz o upload para a plataforma Amazon, estava fisicamente sozinha. Mas todas as minhas partículas estavam preenchidas de expectativas, anseios finalmente despertos e reluzentes, pessoas que me ajudaram a cavar essa brecha e confiar nas bifurcações; meu eu de 13 anos que escrevia sem saber o motivo, meu eu de 20 que arriscou escrever o primeiro romance, meus alunos que escondiam sua arte em cadernos de desenhos e poesias em folhas soltas e amassadas, meus aliados, escritores e contadores de histórias, que me ajudaram a existir na clandestinidade reconfortante das leituras que atravessavam as madrugadas.

E a Bianca que finalmente lutava contra a invisibilidade, uma estrutura social machista e profundamente opressora que ainda determina qual é o lugar da mulher.

Camus, meu escritor preferido, afirmou que a beleza do ofício do escritor está na resistência à opressão, e essa é a semente da arte, a resistência. E ele acrescenta: portanto, na aceitação da solidão.

Entendo essa solidão no sentido existencial, porque ela pode e deve ser diluída. Não há solidão quando compartilhamos nossa poética e criamos um vínculo de reconhecimento e acolhimento com outros seres solitários, sedentos de poesia. Não há solidão quando compreendemos que somos nós mesmos dentro das nossas brechas, paixões e sonhos secretos.  Quando um personagem e leitor se reconhecem e criam uma nova história.

Afinal, as brechas são estrelas e oásis que brotam em intermináveis desertos.

Os leitores chegam aos poucos, e formam um mosaico polifônico de visões de mundo, vivências, entendimentos, referências e questionamentos.

O leitor é o coração da obra, a pausa contemplativa, a arte que cria vida e expande suas raízes.

Por tudo isso, respondendo à Camus: desde que emergi como artista, oferecendo amorosamente A garota napolitana, tive a certeza de que nunca mais estaria sozinha.

A artista submersa

Você conhece alguém que desenvolve alguma linguagem artística em segredo? Provavelmente, tem outra profissão, e a arte é uma atividade secundária, como um hobby?

(Essa pessoa pode ser você).

Quando comecei a escrever, na adolescência, não sabia por quê. As palavras simplesmente saíam aos montes. Eu era intuitiva e não técnica. Escrever era necessidade de existir, respirar.

Eu sabia que poderia ser uma profissão, um modo de estar no mundo. Mas não tinha a coragem necessária pra materializar. Pra ser quem eu era.

Escolhi a educação. Me entreguei com ética, responsabilidade, paixão. Ser educadora foi, pra mim, uma obra de arte, não porque eu era excelente (cometi erros), mas porque acreditava no que fazia.

Mas eu tinha um amante secreto: a escrita.

Entre corrigir trabalhos e preparar aulas, me encontrava com ele e produzia. Por anos, fiquei entretida com romances, modelando arquitetura de personagens, traçando jornadas. Sonhava com o momento em que eles criariam vida.

Porém o medo me paralisava. Medo de ser rejeitada, de me desnudar por meio da arte, não saber se o que eu escrevia era bom. Medo, principalmente, de consolidar minha verdadeira identidade, tirar meu amante do armário e assumir a relação.

O resultado? Tristeza, angústia, a sensação de que eu não estava me realizando plenamente. Um vazio permanente, que nada preenchia.

Eu espiava editais e concursos. Quase me inscrevia, mas a coragem fugia: ano que vem, com certeza. Minha escrita aparecia ocasionalmente. Eu tinha meu blog, postava nas redes, mas parava. Então, eu era uma artista submersa que espalhava fagulhas da minha arte, alguns lampejos. Emergia um pouco.

O que me fez querer atingir a superfície foi uma depressão, em 2022. Não foi extremamente grave, mas debilitante. Me afastei do mundo, abandonei projetos (eu era presente nas redes, gerenciava comunidades, projetos fotográficos, debatia, propunha).

A escrita me fez emergir, como se uma voz dissesse: quer diluir essa tristeza e continuar? Escreva. O caminho é se voltar pra si mesma. É ser você.

Em setembro do ano passado, eu tinha dois volumes prontos sobre o apartheid. Foram dois anos de pesquisa histórica e um desejo imenso de publicar. Comecei a pesquisar editoras, conhecer o mercado editorial, e o que descobri renderia outro texto.

Em resumo, eu não me reconheci em nenhuma opção. Era o momento de existir no mundo, mas eu não sabia “que roupa usar”.

Foi quando A garota napolitana apareceu. Nina sussurrou sua história em meu ouvido, me pediu pra escrevê-la e empurrou os romances prontos sem delicadeza.

Sem saber exatamente onde aquilo ia dar, obedeci. Um tempo depois, entendi: eu precisava falar sobre a dor feminina. Sobre nossa luta silenciosa contra sistemas opressores, os traumas que sofremos e não revelamos, e que modelam nossa vida adulta.

Precisava, também, mostrar que a vida não é feita apenas de sofrimento. Que pessoas machucadas tentam, avançam, desejam, travam batalhas contra e a favor da cura, se aproximam e se afastam dela.

A vida é feita de longos e complexos subtextos, silêncios que carregam nossas sombras e nossas verdades. Muito do que somos está nas entrelinhas. No que não é dito nem mostrado. Na auto sabotagem, mas também na ousadia que emerge de vez em quando e oferta um caminho.

Nina varreu todas as minhas hesitações, e me ofereceu uma missão: conduzi-la até os leitores.

Não sei exatamente qual é seu objetivo. Ela nunca me contou. Há uma magia que acontece entre leitor e personagem, uma cumplicidade que costura sentidos e afetos.

Por tudo isso, entendi que não poderia mais ser uma artista submersa.

Aliás, não queria mais.

Temerosa, inundada de dúvidas e e… se?, levei A garota napolitana para conhecer a luz do sol.

O que aconteceu depois?

Conto em outro texto.

A arte da brecha

Poesia é:

Respiro?

Fenda?

Beleza? Mesmo quando escancara as nuances da feiura?

Há poesia somente nas linhas, ou também em conversas, encontros, imagens, memórias?

Há poesia no riso?

Na recusa?

Na brecha?

Gosto da poesia do contar.

Quando algo nos afeta, contamos para quem amamos. Quando vivemos uma experiência, queremos cumplicidade, olhares curiosos, o contar o que foi contado (que é uma maneira de existir).

Em minha infância, eu acompanhava minha avó Assunta em suas visitas às amigas. Lembro da mesa servida, do cheiro de café e bolo, e das conversas adultas, que eu não compreendia. E não precisava. porque eu captava os tons das vozes, olhares que eram capítulos inteiros, silêncios que encostavam em segredos. E eu era abraçada por um difuso e agradável sentimento de pertencer.

Mais tarde, os livros me presentearam com um manancial inesgotável de conversas. Um deles, talvez o primeiro, era sobre um burrinho que viajou sozinho para conhecer o horizonte.

Por acaso, o sonho dele ficou sedimentado nos ossos de quem sou: quais horizontes eu desejaria desbravar? Como?

Em meus ossos, há também o fascínio pela alquimia da ficção: e se eu conversasse com o burrinho? E se ele me levasse para outro horizonte?

E se eu contasse histórias também?

A garota napolitana nasceu dessa brecha entre Nina, a protagonista, e eu.

Me conta, qual é a sua brecha?

Quando literatura e fotografia se misturam

Em 2013, me apaixonei pela arte urbana, principalmente as inscrições encontradas em espaços públicos.

A brecha: uma poesia, uma frase, uma provocação, ferindo a lógica burocrática do concreto cinza.

São as Grafias Visuais, um projeto que pretendo concluir e, quem sabe, transformar em livro: o que as ruas gritam? Qual é o apelo? Ou o convite? Ou a insinuação?

Dá pra brincar bastante com as frases e suas possíveis interpretações.

Encontrei essas frases que deixam convites para a criação. Sem nenhum propósito, a princípio.

Apenas pelo prazer de dar vazão ao anseio de criação de que existem em nós.

Curtiu? Me conta!

Quando eu encontrar o amor…

Vou me curar.

A pessoa que me amar vai varrer todas as feridas e cicatrizes da minha alma.

Vou renascer, zerar meu passado, e terei todas as minhas necessidades supridas. Nós dois seremos um só.

Será?!

Sou de uma geração de mulheres que cresceu acreditando em príncipe encantado, bombardeada de estímulos incessantes: desenhos da Disney, comédias românticas, os famosos romances açucarados… Esse ser mágico, perfeito, portador de todas as respostas, que nasceu pronto, nos faria felizes para sempre.

Em algum momento da minha jornada, uma pergunta crucial me atravessou: e se eu tentar me salvar? E se eu construir autonomia sobre meus desejos e necessidades, e entender a relação romântica como um complemento, capaz agregar novos elementos à minha existência, feita de diversas texturas e cores, e não ser a razão da minha existência?

Nós, mulheres, sabemos como funciona: temos que estar prontas para quando ele chegar, atentas às suas necessidades e demandas, e supri-las. Sempre arrumadas, enfeitadas, até mesmo dóceis, afinal, a mocinha conquista e seduz pela sua alma alegre, sua disponibilidade infinita, sua natureza maleável.

Isso não quer dizer que não acredito no amor. Mas quando ele se transforma em ideal a ser alcançado, de maneira padronizada, descartando nossas nuances, medos, recuos, e no caso das mulheres, o protagonismo sobre nossas escolhas, merece um sinal de alerta.

Enquanto escritora, tentei criar uma história de amor mais humanizada, porque A garota napolitana, meu romance de estreia, é também, sobre o amor entre Nina e André.

Mas não se engane: para além dessa padronização, a jornada deles coloca em evidência justamente a humanidade de cada um, e, principalmente, o que interdita uma entrega impulsiva, ou previsível, onde tudo se encaixa perfeitamente.

Como minha primeira e sensacional leitora Amanda Gonzaga afirmou: O romance dela com André não é o principal fator. O amor deles vai ser uma consequência dela ficar bem.

E por que Nina tem que ficar bem? Por que ela é uma mulher que, como todas nós, foi vítima de diversos tipos de violência. Por isso, como aconteceu comigo, em algum momento da sua história, ela percebe que é responsável pela sua existência, e inverte o jogo: ela não tem que ser amada por um homem para ser curada, ela tem que aprender se curar para amar.

E você, ainda acredita em amor romântico como salvação?