A ambição, em si, é uma virtude? A ambição masculina é encorajada e admirada em nossa cultura?
Em meu romance, A garota napolitana, a protagonista Nina conhece Marcos quando ambos cursam Jornalismo. Começam a namorar, e, em pouco tempo, ele define seus objetivos: quer ser âncora de um jornal da BBC, por isso, não quer ter filhos, e é irredutível. Prioriza sua carreira, em detrimento dos objetivos de Nina, que ainda estão sendo contornados.
Ela não reage, apenas engole sua raiva, ácida e silenciosa, afinal, o mundo sempre foi dos homens.
Esse trecho específico do romance ocorre no início dos anos 2000, quando o feminismo, enquanto arsenal de diálogo e mobilização, ainda estava saindo das fronteiras acadêmicas. Também por esse motivo, a angústia de Nina não encontrava respaldo externo. A quase ausência de linguagem social (machismo estrutural, violência simbólica, abuso emocional disfarçado de cuidado) a deixava no escuro.
Embora esse escuro tenha diminuído, 25 anos depois, a ambição masculina ainda é admirada e endossada. Os homens, de maneira geral, defendem sua reputação, seu status, sua posição social, mesmo que a base dessas conquistas esteja sedimentada em diversas violências instituídas.
Será que ainda acreditamos que os homens são mais importantes, mais competentes, mais inteligentes?
As mulheres ainda engolem a raiva silenciosa? Nós ainda carregamos a crença de que o poder masculino consiste em desbravar o mundo, e cabe às mulheres cuidarem desse legado e manterem a vida doméstica em ordem?
O que vc pensa sobre isso?