Escrevo há trinta e dois anos. Minha primeira crônica, O sol, nasceu quando eu tinha 13. É a primeira experimentação no universo da escrita, o primeiro mergulho nas águas vertiginosas que me curaram por todos esses anos.
Por diversas razões, principalmente internas, esse sonho foi adiado, o que me faz pensar na substância de que são feitos: não há um caminho linear, nem uma fórmula mágica, e sim renúncias, recuos, medos, pequenas alegrias, fagulhas indecisas e pressões externas, muitas vezes corrosivas (e covardes).
Aos 14, usei as palavras para começar a esboçar minha identidade, quando escrevi uma crônica poética, não por acaso chamada Poesia:
…Ergueram prisões, manicômios e distribuíram títulos hilários para os que ainda ousam. Para os ditos poetas. Quando seres humanos condenados e pecadores, impulsionados pelo quase possível, injetam na alma uma só dose de liberdade, não sabem mais como construir muros que limitem a existência absoluta. Eles se movimentam, dançam. Criam.
Esse anseio pelo desconhecido, pelo avesso, pela liberdade (um mistério sempre deglutido até a exaustão), me levaria a experimentar outras linguagens e formatos: contos, poesias, romances. Não, a A garota napolitana não é meu primeiro romance escrito, e sim o primeiro que cometeu a ousadia de conhecer o mundo.
Até mesmo em minha vida acadêmica, enquanto socióloga, essa experimentação e esse anseio me guiavam: ainda no colégio, escrevi uma dissertação sobre A servidão voluntária, analisando a obra de Étienne de La Bóetie e a filosofia sartreana. Na graduação, escolhi o autor Henry Miller para debater o sexo como subversão, um trabalho que deve ser revisto a partir do meu olhar mais maduro sobre sua obra. Por fim, em meu Mestrado, defendido em 2011, fiz um estudo de campo dos Saraus Periféricos como possibilidades de democratizar o espaço urbano segregado.
Em tudo o que escrevi, há um apelo para que vozes marginalizadas sejam ouvidas, para que os indivíduos, em suas jornadas, encontrem maneiras de enfrentar as estruturas de poder, para que as mulheres sejam protagonistas de suas lutas e de suas dores, as dores silenciosas e dilacerantes que poucos querem ouvir e validar.
O romance A garota napolitana carrega toda essa carga emotiva, intelectual, filosófica e existencial. Mas carrega, principalmente, o anseio daquela garotinha de 13 anos que se apoderou de uma porção mágica feita de letras, sílabas, palavras, sentenças, e que sabia que veio ao mundo para contar histórias.
Porque histórias entrelaçam almas, e almas entrelaçadas criam novos mundos.