Não acredito que conseguiríamos sobreviver, enquanto espécie, sem arte. Sem música, filmes, séries, fotografias, livros.
Arte, esse universo tão vasto e infinito, que sofreu, ao longo da História, censuras, ataques, restrições, que serviu a ideologias, tentando modelar corações e mentes a serviço do poder, mas que também ofereceu respiro, em tantos momentos críticos e obscuros.
Tenho conversado com muitas pessoas durante esse período de confinamento, e todas elas, sem exceção, me dizem que estão ocupando o tempo justamente consumindo algum tipo de arte. No meu caso, além de consumir, também produzo, com muito mais afinco do que em outros momentos, não de forma linear, nem disciplinada, pois meu fazer artístico é caótico, sofre interrupções, persegue bifurcações que não controlo.
Não cometo a imprudência de afirmar que a arte é a solução dos nossos problemas gigantescos, e aparentemente intermináveis, uma vez que estamos sujeitos a um governo macabro.
Há essa dor imensa pairando no ar, por tantas mortes, a incerteza diante do futuro, o desespero das dificuldades financeiras, e nossas lutas interiores, para compreendermos o tamanho e a consistência desse abismo. Mas, pelo menos no meu caso, a arte me acalma, me oferece alguma coisa, que é plantada no cerne da minha alma, e que gera frutos que vou colhendo ao longo dos dias.
Sou acalentada por outras vozes, me reconheço em enredos e histórias, entro em contato com minha essência, minhas emoções, minha subjetividade.
Transformada, partilho o pão das descobertas, dos deslumbramentos, e, também, dos sofrimentos. Olho para a realidade com olhos mais aguçados, refinando a percepção do que está errado, distorcido, perverso.
Me torno mais fortes para agir (e reagir).
É a arte que me permite me mostrar como sou, com minhas supostas falhas, com meus pedaços não lapidados, com minhas reticências e interrogações, com meu desejo urgente de denunciar, de ajudar a criar uma nova cultura.
Por tudo isso, se alguma coisa boa pode ser extraída dessa pandemia, e do pesadelo que estamos vivendo, tão desprotegidos pelo Estado, tão vulneráveis ao que existe de pior nos donos do poder, é permitir que a arte de fato nos transforme e nos inspire a contarmos nossa história com a alma alimentada e com a liberdade reluzente.
29/05/2020