Por que escrevo?

Escrever é uma fome irracional.

Traduzir o impossível em linguagem requer um desejo quase doloroso de atravessar todas as barreiras do não dito.

Não acho que o ato de criar seja uma aventura, porque quem escreve é conduzido pela necessidade de construir, tijolo por tijolo, uma estrutura equilibrada na vontade pura. Em um corpo flexível.

E o que não cabe nessa criação rasga as veias desse corpo.

Escrever é solitário por germinar a vida, um fim em si mesmo, que torna possível a descoberta do horizonte.

Um silêncio foi parido, um ser vivo foi criado.

E então, o leitor desnuda o óbvio e absorve a promessa de vida, de luta e de encantamento.

Por isso, criar é um milagre.

09/04/1997

A artista emerge

 15 de agosto de 2025, o arquivo está pronto, formatado, o romance A garota napolitana foi revisado exatamente 18 vezes, é só apertar um botão.

Só?!

No exato momento em que fiz o upload para a plataforma Amazon, estava fisicamente sozinha. Mas todas as minhas partículas estavam preenchidas de expectativas, anseios finalmente despertos e reluzentes, pessoas que me ajudaram a cavar essa brecha e confiar nas bifurcações; meu eu de 13 anos que escrevia sem saber o motivo, meu eu de 20 que arriscou escrever o primeiro romance, meus alunos que escondiam sua arte em cadernos de desenhos e poesias em folhas soltas e amassadas, meus aliados, escritores e contadores de histórias, que me ajudaram a existir na clandestinidade reconfortante das leituras que atravessavam as madrugadas.

E a Bianca que finalmente lutava contra a invisibilidade, uma estrutura social machista e profundamente opressora que ainda determina qual é o lugar da mulher.

Camus, meu escritor preferido, afirmou que a beleza do ofício do escritor está na resistência à opressão, e essa é a semente da arte, a resistência. E ele acrescenta: portanto, na aceitação da solidão.

Entendo essa solidão no sentido existencial, porque ela pode e deve ser diluída. Não há solidão quando compartilhamos nossa poética e criamos um vínculo de reconhecimento e acolhimento com outros seres solitários, sedentos de poesia. Não há solidão quando compreendemos que somos nós mesmos dentro das nossas brechas, paixões e sonhos secretos.  Quando um personagem e leitor se reconhecem e criam uma nova história.

Afinal, as brechas são estrelas e oásis que brotam em intermináveis desertos.

Os leitores chegam aos poucos, e formam um mosaico polifônico de visões de mundo, vivências, entendimentos, referências e questionamentos.

O leitor é o coração da obra, a pausa contemplativa, a arte que cria vida e expande suas raízes.

Por tudo isso, respondendo à Camus: desde que emergi como artista, oferecendo amorosamente A garota napolitana, tive a certeza de que nunca mais estaria sozinha.

A artista submersa

Você conhece alguém que desenvolve alguma linguagem artística em segredo? Provavelmente, tem outra profissão, e a arte é uma atividade secundária, como um hobby?

(Essa pessoa pode ser você).

Quando comecei a escrever, na adolescência, não sabia por quê. As palavras simplesmente saíam aos montes. Eu era intuitiva e não técnica. Escrever era necessidade de existir, respirar.

Eu sabia que poderia ser uma profissão, um modo de estar no mundo. Mas não tinha a coragem necessária pra materializar. Pra ser quem eu era.

Escolhi a educação. Me entreguei com ética, responsabilidade, paixão. Ser educadora foi, pra mim, uma obra de arte, não porque eu era excelente (cometi erros), mas porque acreditava no que fazia.

Mas eu tinha um amante secreto: a escrita.

Entre corrigir trabalhos e preparar aulas, me encontrava com ele e produzia. Por anos, fiquei entretida com romances, modelando arquitetura de personagens, traçando jornadas. Sonhava com o momento em que eles criariam vida.

Porém o medo me paralisava. Medo de ser rejeitada, de me desnudar por meio da arte, não saber se o que eu escrevia era bom. Medo, principalmente, de consolidar minha verdadeira identidade, tirar meu amante do armário e assumir a relação.

O resultado? Tristeza, angústia, a sensação de que eu não estava me realizando plenamente. Um vazio permanente, que nada preenchia.

Eu espiava editais e concursos. Quase me inscrevia, mas a coragem fugia: ano que vem, com certeza. Minha escrita aparecia ocasionalmente. Eu tinha meu blog, postava nas redes, mas parava. Então, eu era uma artista submersa que espalhava fagulhas da minha arte, alguns lampejos. Emergia um pouco.

O que me fez querer atingir a superfície foi uma depressão, em 2022. Não foi extremamente grave, mas debilitante. Me afastei do mundo, abandonei projetos (eu era presente nas redes, gerenciava comunidades, projetos fotográficos, debatia, propunha).

A escrita me fez emergir, como se uma voz dissesse: quer diluir essa tristeza e continuar? Escreva. O caminho é se voltar pra si mesma. É ser você.

Em setembro do ano passado, eu tinha dois volumes prontos sobre o apartheid. Foram dois anos de pesquisa histórica e um desejo imenso de publicar. Comecei a pesquisar editoras, conhecer o mercado editorial, e o que descobri renderia outro texto.

Em resumo, eu não me reconheci em nenhuma opção. Era o momento de existir no mundo, mas eu não sabia “que roupa usar”.

Foi quando A garota napolitana apareceu. Nina sussurrou sua história em meu ouvido, me pediu pra escrevê-la e empurrou os romances prontos sem delicadeza.

Sem saber exatamente onde aquilo ia dar, obedeci. Um tempo depois, entendi: eu precisava falar sobre a dor feminina. Sobre nossa luta silenciosa contra sistemas opressores, os traumas que sofremos e não revelamos, e que modelam nossa vida adulta.

Precisava, também, mostrar que a vida não é feita apenas de sofrimento. Que pessoas machucadas tentam, avançam, desejam, travam batalhas contra e a favor da cura, se aproximam e se afastam dela.

A vida é feita de longos e complexos subtextos, silêncios que carregam nossas sombras e nossas verdades. Muito do que somos está nas entrelinhas. No que não é dito nem mostrado. Na auto sabotagem, mas também na ousadia que emerge de vez em quando e oferta um caminho.

Nina varreu todas as minhas hesitações, e me ofereceu uma missão: conduzi-la até os leitores.

Não sei exatamente qual é seu objetivo. Ela nunca me contou. Há uma magia que acontece entre leitor e personagem, uma cumplicidade que costura sentidos e afetos.

Por tudo isso, entendi que não poderia mais ser uma artista submersa.

Aliás, não queria mais.

Temerosa, inundada de dúvidas e e… se?, levei A garota napolitana para conhecer a luz do sol.

O que aconteceu depois?

Conto em outro texto.

A arte da brecha

Poesia é:

Respiro?

Fenda?

Beleza? Mesmo quando escancara as nuances da feiura?

Há poesia somente nas linhas, ou também em conversas, encontros, imagens, memórias?

Há poesia no riso?

Na recusa?

Na brecha?

Gosto da poesia do contar.

Quando algo nos afeta, contamos para quem amamos. Quando vivemos uma experiência, queremos cumplicidade, olhares curiosos, o contar o que foi contado (que é uma maneira de existir).

Em minha infância, eu acompanhava minha avó Assunta em suas visitas às amigas. Lembro da mesa servida, do cheiro de café e bolo, e das conversas adultas, que eu não compreendia. E não precisava. porque eu captava os tons das vozes, olhares que eram capítulos inteiros, silêncios que encostavam em segredos. E eu era abraçada por um difuso e agradável sentimento de pertencer.

Mais tarde, os livros me presentearam com um manancial inesgotável de conversas. Um deles, talvez o primeiro, era sobre um burrinho que viajou sozinho para conhecer o horizonte.

Por acaso, o sonho dele ficou sedimentado nos ossos de quem sou: quais horizontes eu desejaria desbravar? Como?

Em meus ossos, há também o fascínio pela alquimia da ficção: e se eu conversasse com o burrinho? E se ele me levasse para outro horizonte?

E se eu contasse histórias também?

A garota napolitana nasceu dessa brecha entre Nina, a protagonista, e eu.

Me conta, qual é a sua brecha?

Quando literatura e fotografia se misturam

Em 2013, me apaixonei pela arte urbana, principalmente as inscrições encontradas em espaços públicos.

A brecha: uma poesia, uma frase, uma provocação, ferindo a lógica burocrática do concreto cinza.

São as Grafias Visuais, um projeto que pretendo concluir e, quem sabe, transformar em livro: o que as ruas gritam? Qual é o apelo? Ou o convite? Ou a insinuação?

Dá pra brincar bastante com as frases e suas possíveis interpretações.

Encontrei essas frases que deixam convites para a criação. Sem nenhum propósito, a princípio.

Apenas pelo prazer de dar vazão ao anseio de criação de que existem em nós.

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Minha primeira crônica

Considero essa crônica o marco fundador do eu/escritora.

O ano era 1993, eu tinha 13 anos, quando comecei a experimentar as palavras.

Sobre ela, meu olhar de hoje, 32 anos depois, gosta do tom ingênuo, idealista, como uma matéria bruta que que seria modelada por muitas forças e vozes, nem todas generosas.

Mas a urgência em preservar o encantamento pela vida permaneceu.

O Sol

Sou como a chuva, que nasce no céu e morre no estalo do chão, sem rumo e muitas veze sem futuro.

Ou como o sol, que existe por não ter onde depositar tanto calor e disposição. E ainda como a lua, mãe da experiência, e seus filhos são as estrelas que brilham com tanta intensidade que às vezes assusta.

Sou como um pássaro, e suas asas são minha fonte de inspiração.

Minha alegria é ser livre, porque ser livre é ser justo, com a alma pura.

Sou meu espelho, e tento me refletir até chegar à conclusão de que sou perfeita, mas essa perfeição não será usada para provar que sou capaz, e sim para me trazer conforto na alma e paz no coração.

A garotinha Bianca Lunna, em 23/09/1993.

Um sonho realizado

Escrevo há trinta e dois anos. Minha primeira crônica, O sol, nasceu quando eu tinha 13. É a primeira experimentação no universo da escrita, o primeiro mergulho nas águas vertiginosas que me curaram por todos esses anos.

Por diversas razões, principalmente internas, esse sonho foi adiado, o que me faz pensar na substância de que são feitos: não há um caminho linear, nem uma fórmula mágica, e sim renúncias, recuos, medos, pequenas alegrias, fagulhas indecisas e pressões externas, muitas vezes corrosivas (e covardes).

Aos 14, usei as palavras para começar a esboçar minha identidade, quando escrevi uma crônica poética, não por acaso chamada Poesia:

…Ergueram prisões, manicômios e distribuíram títulos hilários para os que ainda ousam. Para os ditos poetas. Quando seres humanos condenados e pecadores, impulsionados pelo quase possível, injetam na alma uma só dose de liberdade, não sabem mais como construir muros que limitem a existência absoluta. Eles se movimentam, dançam. Criam.

Esse anseio pelo desconhecido, pelo avesso, pela liberdade (um mistério sempre deglutido até a exaustão), me levaria a experimentar outras linguagens e formatos: contos, poesias, romances. Não, a A garota napolitana não é meu primeiro romance escrito, e sim o primeiro que cometeu a ousadia de conhecer o mundo.

Até mesmo em minha vida acadêmica, enquanto socióloga, essa experimentação e esse anseio me guiavam: ainda no colégio, escrevi uma dissertação sobre A servidão voluntária, analisando a obra de Étienne de La Bóetie e a filosofia sartreana. Na graduação, escolhi o autor Henry Miller para debater o sexo como subversão, um trabalho que deve ser revisto a partir do meu olhar mais maduro sobre sua obra. Por fim, em meu Mestrado, defendido em 2011, fiz um estudo de campo dos Saraus Periféricos como possibilidades de democratizar o espaço urbano segregado.

Em tudo o que escrevi, há um apelo para que vozes marginalizadas sejam ouvidas, para que os indivíduos, em suas jornadas, encontrem maneiras de enfrentar as estruturas de poder, para que as mulheres sejam protagonistas de suas lutas e de suas dores, as dores silenciosas e dilacerantes que poucos querem ouvir e validar.

O romance A garota napolitana carrega toda essa carga emotiva, intelectual, filosófica e existencial. Mas carrega, principalmente, o anseio daquela garotinha de 13 anos que se apoderou de uma porção mágica feita de letras, sílabas, palavras, sentenças, e que sabia que veio ao mundo para contar histórias.

Porque histórias entrelaçam almas, e almas entrelaçadas criam novos mundos.

Escreva!

Escreva!

No bloco de notas do celular, no caderno, no notebook… Escreva seus pensamentos, impressões, anseios, sonhos, metas. Faça listas divertidas.

Invente: um personagem, um lugar, uma trama.

Não tenha medo: a folha em branco nunca vai te censurar, nem rir de você. Ela vai colher suas ideias e pedir mais.

Escrevendo, você se conhece, nomeia o mundo que te rodeia. Encontra as palavras que, generosamente, expressam seus sentimentos mais secretos (e latentes). Escrevendo, você também inspira, cria e espalha afetos. Constrói pontes, sugere caminhos. Produz conhecimento (porque existe um manancial inesgotável de informações e percepções dentro de você).

E, nessa prática ousada e corajosa, você vai se refinando, tirando os excessos do seu texto, ou expandindo uma ideia que nasceu tímida.

E vá além: mastigue suas palavras com uma generosidade amorosa, leia em voz alta, mais de uma vez. Assim, você absorve os ritmos das palavras, mapeia aquilo que as une (ou as separa), como uma partitura musical.

SIM, O TEXTO também é música: se estiver truncado, difícil, a sonoridade das palavras vai te alertar. Se estiver fluido, encadeado, bem tecido, a música mais harmoniosa e autêntica vai te preencher, exatamente aquela que jorra da sua fantástica vida interior.

Escrever te liberta.

Porque o caminho para a liberdade é conhecer o mundo que mora dentro.

26/08/2021