Em poucas palavras

Em cima do muro: EMBUSTE

A palidez da virtude: DIARRÉIA

Norma Culta: LADAINHA

Comer fogo: TRAVESSURA

Inventar um mundo: PEQUENO VÍCIO

Tristeza: CAPRICHO DO INVERNO

Mentir: FLOR MURCHA

Amar: LOUCURA ENFEITADA

Dizer: GUARDAR A CHUVA

Sou boa o bastante… pra mim!

Quando elogio uma pessoa, seja em qualquer área, mas principalmente nas Artes, onde transito mais, ouço a seguinte resposta: Ah, mas não sou bom ou boa o bastante, preciso melhorar…

Vamos lá:


Pra que a gente consiga desmistificar certas crenças que nos limitam, principalmente essa, proponho o seguinte exercício: complete a frase: Não sou bom o bastante para… Para quem? Para quê? Qual patamar deve ser atingido? Qual a referência ou critérios que utilizamos para sermos bons o bastante? O que devemos fazer, efetivamente, para que estejamos prontos para mostrar nossa arte, ecoar nossa voz, oferecer algo ao mundo? Como se esse estar pronto fosse sinônimo de aceitação absoluta, uma vez que todos os critérios (mesmo que a gente não saiba quais) foram atingidos. Parece absurdo, não é?! Sim, é absurdo mesmo!


Ainda sinto reflexos desse modo de ser dentro de mim, e luto contra ele. Após muitos anos de terapia (o que recomendo imensamente), consegui diluir um pouco o terror de que não me aceitassem, não me compreendessem, que debochassem das minhas criações simplesmente porque elas não eram perfeitas.


Todos nós possuímos nossa poética pessoal. E essa expressão não deve ser compreendida no sentido literal: não é a capacidade de escrever poesias, e sim de realizar algo a partir do nosso ponto de vista sobre o mundo, da riqueza da nossa vida interior, da nossa percepção profundamente particular sobre os detalhes, as relações humanas, nossos desejos secretos, nossos sonhos soterrados, nossa ânsia de viver, criar e compartilhar à nossa maneira. 


Especificamente em relação à fotografia, percebo que existe uma rigidez muito grande em relação a essa lógica do estar pronto, bastante propagada em alguns nichos. Meu próprio aprendizado em relação ao ato de fotografar foi desconstruído (uma palavra que está na moda, mas bastante importante): não consigo elencar exatamente quais foram as influências que desconstruí, pois, quando comecei, bebi de muitas fontes e absorvi muita informação. Mas me desfiz da ideia de que existia a foto perfeita, o enquadramento perfeito, a edição perfeita. Quando comecei a editar, passava horas debruçada na mesma foto, editando e reeditando, com uma vozinha irritante no meu ouvido: ainda não está bom, faz de novo, ainda não está bom, faz de novo…


Aquilo não tinha fim. E quando vejo esse discurso do ainda não está bom, você tem que estudar muito para virar fotógrafo de verdade, um imenso alerta soa em minha cabeça. E, mais uma vez, entro no campo da subjetividade: por qual motivo uma foto deveria ser descartada por estar desfocada, se, mesmo assim, ela conta uma história interessante? Por qual motivo temos que “limpar” todos os possíveis defeitos de uma foto na edição, se, às vezes, o que queremos mostrar é feio, distorcido, sujo?, se é isso o que nossa subjetividade quer escancarar? 


Não temos controle sobre nosso poder criativo, e se existe alguma regra que deveria ser seguida à risca, sem questionamentos, é a persistência. Persista. Exista no mundo com seu fazer artístico. Faça sua voz ser ouvida. A resposta positiva, se é que precisamos de uma para sermos legitimados enquanto artistas, pode vir de onde menos esperamos, e de maneiras que, de fato, preenchem nossa alma. É como mandar um filho para o mundo: sabemos que ele pode sofrer, pode se decepcionar, e tudo isso faz parte da dinâmica da vida. Porque ele também pode se encantar, compartilhar, dividir, fundar, espalhar sementes. 


Portanto, vamos tomar cuidado com o discurso do perfeccionismo, dos seres ressentidos que estão engessados em fórmulas esdrúxulas e limitantes, e que por isso querem nos enredar nessa teia perigosa que só gera frustração e isolamento. Volto a dizer: utilizem as ferramentas, estão aí pra isso. Se aprimorem, absorvam conhecimento, pois todo conhecimento é uma experiência, e toda experiência é uma transformação interior. Mas vamos cuidar muito mais da nossa poética pessoal, daquilo que urge e precisa ser dito, sem que haja censores (internos e externos), sem que haja restrições absurdas. 


Porque sou boa o suficiente pra mim, sou boa o bastante para dizer aquilo que preciso dizer, da maneira como consigo dizer naquele momento. E é isso que está, efetivamente, pronto.

07/04/2020