(A) temporal

Em batalhas invisíveis, nos fazemos nas entranhas misteriosas do tempo.

Nas entrelinhas de suas artimanhas, resistimos?

Reter/deglutir/fundir-se:

No tempo de um deslumbramento, de um sussurro, no instante exato em que uma mágoa seca, e voltamos a caminhar, inundados de possibilidades abortadas, cavando a coragem necessária para criarmos outras;

No tempo (curto?) que a felicidade demora para nos reconfigurar, e nos fortalecer, e se despedir, querendo despejar esperança, que é saudade;

No tempo que demoramos em aceitar a chuva, para um pé mergulhar numa poça, para a luz compor uma fotografia, para uma música assaltar nossa alma, para um cheiro específico nos devolver um punhado do passado, para um aplauso inundar o mundo de encanto;

Na sabedoria infinita e visceral das crianças que, entregues às suas brincadeiras, fazem com que o tempo seja só delas, como um brinquedo.

Farta de um desejo, mais antigo que o tempo, de trilhar, sempre, o caminho da liberdade, tento me desfazer da minha coleção de relógios.

09/01/2014

Na natureza selvagem – Inspirada em Alex Supertramp

            Primeiro, vi o filme. Mais de uma vez. Depois, a curiosidade em desvendar essa história no formato escrito me consumiu.

Devorei o livro:  Na Natureza Selvagem, escrito por Jon Krakauer, publicado pela Editora Cia das Letras.

            Costumo dizer que todo livro, todo filme, toda forma de arte é uma experiência transformadora. Nesse caso, tanto o filme quanto o livro me deram tantas coisas que talvez eu não consiga descrever em sua totalidade; vou descascando minha compreensão, apreendendo um novo detalhe, absorvendo algum ensinamento.

Porque, sobretudo, a biografia de Chris McCandless ensina. Norte-americano, jovem, recém-formado, abandona tudo e empreende uma viagem solitária rumo ao Alasca. Quer estar em contato com a natureza, se refazer a partir dela, e é claro que não vou contar mais detalhes porque vai estragar a experiência de quem tiver a brilhante ideia de assistir.

            Sua trajetória é intensa, estruturada numa força que surpreende, e oferece uma esperança que precisa ser sorvida aos poucos. Andarilho, misantropo, solitário, vai desbravando paisagens, e, ao acompanhar sua jornada, fiquei intrigada com a maneira com que seu corpo se torna absolutamente livre, como um receptáculo que reage ao meio físico, aberto a ele.

            Penso, então, em nossos corpos, condicionados à macabra vida urbana. O corpo que treme, em silêncio. O corpo que quer escapar, já que não o ouvem. Nossos corpos possuem vozes, como diz o brilhante bailarino Ismael Ivo.

O corpo sofre. Calado, porém, rebelde. O corpo apela para existir, pra que a mente entre em contato com ele, conheça seus movimentos, seus espasmos, sua poesia submersa. O corpo tem uma potência que a mente não consegue absorver.

Chris McCandless, que se rebatizou de Alex Supertramp, se disponibilizou completamente para mergulhar em si mesmo, para se conhecer, sem que nada o impedisse. Ouvir o silêncio e a solidão, as dores do passado e a alegria misteriosa do porvir, apreender o agora como única e provisória lei.

Agora. Agora preciso comer. Agora preciso entender as consequências das minhas escolhas. Agora preciso olhar para minhas marcas e me desfazer de todas que não têm mais sentido. Agora. Agora. Agora me permito me reinventar a partir do mapeamento das minhas mímicas, da minha geografia interior, da minha vastidão e pequenez, dos meus pedregulhos e das minhas fortalezas, do que significa amar e deixar de amar. Sobretudo deixar de amar, suponho.

Agora sei que a liberdade é feita de uma matéria pegajosa, só serei livre se for contaminada por essa matéria, se eu me fizer a partir dela, se estiver tão dentro de mim mesma que nada, absolutamente nada, nunca, poderá me curvar novamente. Agora escolho. Escolho a cada minuto, e no minuto seguinte renuncio a essa escolha, porque estou me fazendo enquanto. Nada de certezas e conclusões, elas sempre foram provisórias; tentadoras, porém levianas.

Agora ensaio, grito, regozijo o simples fato de existir, ouso, recuo, durmo, bocejo, rio, invento ficções que preenchem meu passado, faço dele uma série de fotografias mentais em preto e branco, agora sou alegre sem nenhum motivo e sem nenhuma medida, agora há em mim fogo e calmaria, há anseio e preguiça, há convicção e cacos de vidro, há miopia e uma lucidez que me ultrapassa, que me deixa fora de órbita, que me oferece um chão utópico, daqui uns instantes esse chão vai desaparecer.

             Todos querem um pedaço dele, do Supertramp. As pessoas com quem ele interage, ao longo de sua viagem, querem protegê-lo, prendê-lo, provar, a qualquer custo, que fomos talhados unicamente para a sociedade, tudo o que é selvagem é perigoso, é como se lhes dissessem, nas entrelinhas: não seja tão livre, não vale a pena, encontre um caminho, pertença!

            Não, ele não pertence. Com profunda empatia e sinceridade, oferece algo de si a essas pessoas, mas se mantém distante, entretido demais consigo mesmo, inventando sua poesia, talvez querendo viver dentro dela, talvez não. Em cada lugar inóspito em que ele pousa, temporariamente, escreve versos nas cascas das árvores, num pedaço de madeira, em cadernos e papéis soltos, é o que existirão, palavras. Pistas. Indicações. Lutas.

            Não me sinto inclinada a fazer o mesmo percurso que ele, me falta ousadia e desenvoltura, embora a ideia de desaparecer me seduza de vez em quando. O que apreendi, na profundidade de sua biografia, é a imensa e urgente necessidade de existir. Como ele, escrevo, rabisco. Escrevo nesse espaço, escrevo pra mim mesma, escrevo um diário, às vezes alguma poesia. É como existo, por meio das palavras, todas inconclusivas, todas prometendo um começo, instituindo uma dúvida, uma tentativa ardente de compreensão, que esbarra em imensos obstáculos, em gigantescas interdições, afinal, o que existe para ser compreendido?

O que é digno de ser compreendido? Tudo o que percebo nos outros, tudo o que enxergo além do que é dito – e a partir do que é dito – toda essa sede ancestral pela verdade, que sempre me deixou rouca por dentro, enviesada, turva, tudo isso, todas essas pontes destruídas entre eu e tanta gente, tanta gente que me atravessou e que não morou dentro de mim, ou que morou tão silenciosamente que nem me lembro, tanta gente que mora sem permissão e me machuca, tudo isso, certamente, nunca será compreendido e nunca me sentirei redimida.

            Agora. Agora devo acordar por um propósito genuíno, nem que seja contemplar o teto por horas a fio. Agora existo para banhar meu corpo e saborear um prato requintado, ou me inundar de doce de leite, a invenção mais incrível do universo. Agora preciso mergulhar num livro que me refaça. Agora existo somente pra existir e não tem roteiro, não tem rotina, não tem dever, não tem horário, não tem gente poluída e empalada borrando meu caminho, agora sou minha potência e ela direciona meus passos, que assim seja!

O filme: Na Natureza Selvagem

Ano: 2008

Direção: Sean Penn

Elenco: Emile Hirsch, Marcia Gay Harden, William Hurt

Trilha Sonora fantástica composta por: Eddie Vedder (vocalista da banda Pearl Jam).