(A) temporal

Em batalhas invisíveis, nos fazemos nas entranhas misteriosas do tempo.

Nas entrelinhas de suas artimanhas, resistimos?

Reter/deglutir/fundir-se:

No tempo de um deslumbramento, de um sussurro, no instante exato em que uma mágoa seca, e voltamos a caminhar, inundados de possibilidades abortadas, cavando a coragem necessária para criarmos outras;

No tempo (curto?) que a felicidade demora para nos reconfigurar, e nos fortalecer, e se despedir, querendo despejar esperança, que é saudade;

No tempo que demoramos em aceitar a chuva, para um pé mergulhar numa poça, para a luz compor uma fotografia, para uma música assaltar nossa alma, para um cheiro específico nos devolver um punhado do passado, para um aplauso inundar o mundo de encanto;

Na sabedoria infinita e visceral das crianças que, entregues às suas brincadeiras, fazem com que o tempo seja só delas, como um brinquedo.

Farta de um desejo, mais antigo que o tempo, de trilhar, sempre, o caminho da liberdade, tento me desfazer da minha coleção de relógios.

09/01/2014

Lua Crua

Tenha cuidado com os sons que moram lá das profundezas. Com o cheiro incolor da melancolia.

Porque, às vezes, quando tudo está arrumado, tem um VAZIO querendo ser polido e não há nada entre o céu e a terra capaz de preenchê-lo, porque adquiriu garras enquanto crescia.

Assim, sem sequer.

Ainda bem (?) que os dias se repetem, ainda bem que algo cíclico nos mantém vivos, ainda bem que o domingo acaba, que podemos tomar Dorflex para dor de cabeça, e para as outras dores dizem que o tempo…

Tem certos mistérios que ainda estão sendo garimpados em livros, em músicas.

Um oceano musical treinando o ouvido para o imponderável.

Hoje povoei um planeta.

Uma lua crua.

Escreva!

Escreva!

No bloco de notas do celular, no caderno, no notebook… Escreva seus pensamentos, impressões, anseios, sonhos, metas. Faça listas divertidas.

Invente: um personagem, um lugar, uma trama.

Não tenha medo: a folha em branco nunca vai te censurar, nem rir de você. Ela vai colher suas ideias e pedir mais.

Escrevendo, você se conhece, nomeia o mundo que te rodeia. Encontra as palavras que, generosamente, expressam seus sentimentos mais secretos (e latentes). Escrevendo, você também inspira, cria e espalha afetos. Constrói pontes, sugere caminhos. Produz conhecimento (porque existe um manancial inesgotável de informações e percepções dentro de você).

E, nessa prática ousada e corajosa, você vai se refinando, tirando os excessos do seu texto, ou expandindo uma ideia que nasceu tímida.

E vá além: mastigue suas palavras com uma generosidade amorosa, leia em voz alta, mais de uma vez. Assim, você absorve os ritmos das palavras, mapeia aquilo que as une (ou as separa), como uma partitura musical.

SIM, O TEXTO também é música: se estiver truncado, difícil, a sonoridade das palavras vai te alertar. Se estiver fluido, encadeado, bem tecido, a música mais harmoniosa e autêntica vai te preencher, exatamente aquela que jorra da sua fantástica vida interior.

Escrever te liberta.

Porque o caminho para a liberdade é conhecer o mundo que mora dentro.

26/08/2021

Arte no confinamento

Não acredito que conseguiríamos sobreviver, enquanto espécie, sem arte. Sem música, filmes, séries, fotografias, livros.

Arte, esse universo tão vasto e infinito, que sofreu, ao longo da História, censuras, ataques, restrições, que serviu a ideologias, tentando modelar corações e mentes a serviço do poder, mas que também ofereceu respiro, em tantos momentos críticos e obscuros.

Tenho conversado com muitas pessoas durante esse período de confinamento, e todas elas, sem exceção, me dizem que estão ocupando o tempo justamente consumindo algum tipo de arte. No meu caso, além de consumir, também produzo, com muito mais afinco do que em outros momentos, não de forma linear, nem disciplinada, pois meu fazer artístico é caótico, sofre interrupções, persegue bifurcações que não controlo.

Não cometo a imprudência de afirmar que a arte é a solução dos nossos problemas gigantescos, e aparentemente intermináveis, uma vez que estamos sujeitos a um governo macabro.

Há essa dor imensa pairando no ar, por tantas mortes, a incerteza diante do futuro, o desespero das dificuldades financeiras, e nossas lutas interiores, para compreendermos o tamanho e a consistência desse abismo. Mas, pelo menos no meu caso, a arte me acalma, me oferece alguma coisa, que é plantada no cerne da minha alma, e que gera frutos que vou colhendo ao longo dos dias.

Sou acalentada por outras vozes, me reconheço em enredos e histórias, entro em contato com minha essência, minhas emoções, minha subjetividade.

Transformada, partilho o pão das descobertas, dos deslumbramentos, e, também, dos sofrimentos. Olho para a realidade com olhos mais aguçados, refinando a percepção do que está errado, distorcido, perverso.

Me torno mais fortes para agir (e reagir).

É a arte que me permite me mostrar como sou, com minhas supostas falhas, com meus pedaços não lapidados, com minhas reticências e interrogações, com meu desejo urgente de denunciar, de ajudar a criar uma nova cultura.

Por tudo isso, se alguma coisa boa pode ser extraída dessa pandemia, e do pesadelo que estamos vivendo, tão desprotegidos pelo Estado, tão vulneráveis ao que existe de pior nos donos do poder, é permitir que a arte de fato nos transforme e nos inspire a contarmos nossa história com a alma alimentada e com a liberdade reluzente.

29/05/2020

Sou boa o bastante… pra mim!

Quando elogio uma pessoa, seja em qualquer área, mas principalmente nas Artes, onde transito mais, ouço a seguinte resposta: Ah, mas não sou bom ou boa o bastante, preciso melhorar…

Vamos lá:


Pra que a gente consiga desmistificar certas crenças que nos limitam, principalmente essa, proponho o seguinte exercício: complete a frase: Não sou bom o bastante para… Para quem? Para quê? Qual patamar deve ser atingido? Qual a referência ou critérios que utilizamos para sermos bons o bastante? O que devemos fazer, efetivamente, para que estejamos prontos para mostrar nossa arte, ecoar nossa voz, oferecer algo ao mundo? Como se esse estar pronto fosse sinônimo de aceitação absoluta, uma vez que todos os critérios (mesmo que a gente não saiba quais) foram atingidos. Parece absurdo, não é?! Sim, é absurdo mesmo!


Ainda sinto reflexos desse modo de ser dentro de mim, e luto contra ele. Após muitos anos de terapia (o que recomendo imensamente), consegui diluir um pouco o terror de que não me aceitassem, não me compreendessem, que debochassem das minhas criações simplesmente porque elas não eram perfeitas.


Todos nós possuímos nossa poética pessoal. E essa expressão não deve ser compreendida no sentido literal: não é a capacidade de escrever poesias, e sim de realizar algo a partir do nosso ponto de vista sobre o mundo, da riqueza da nossa vida interior, da nossa percepção profundamente particular sobre os detalhes, as relações humanas, nossos desejos secretos, nossos sonhos soterrados, nossa ânsia de viver, criar e compartilhar à nossa maneira. 


Especificamente em relação à fotografia, percebo que existe uma rigidez muito grande em relação a essa lógica do estar pronto, bastante propagada em alguns nichos. Meu próprio aprendizado em relação ao ato de fotografar foi desconstruído (uma palavra que está na moda, mas bastante importante): não consigo elencar exatamente quais foram as influências que desconstruí, pois, quando comecei, bebi de muitas fontes e absorvi muita informação. Mas me desfiz da ideia de que existia a foto perfeita, o enquadramento perfeito, a edição perfeita. Quando comecei a editar, passava horas debruçada na mesma foto, editando e reeditando, com uma vozinha irritante no meu ouvido: ainda não está bom, faz de novo, ainda não está bom, faz de novo…


Aquilo não tinha fim. E quando vejo esse discurso do ainda não está bom, você tem que estudar muito para virar fotógrafo de verdade, um imenso alerta soa em minha cabeça. E, mais uma vez, entro no campo da subjetividade: por qual motivo uma foto deveria ser descartada por estar desfocada, se, mesmo assim, ela conta uma história interessante? Por qual motivo temos que “limpar” todos os possíveis defeitos de uma foto na edição, se, às vezes, o que queremos mostrar é feio, distorcido, sujo?, se é isso o que nossa subjetividade quer escancarar? 


Não temos controle sobre nosso poder criativo, e se existe alguma regra que deveria ser seguida à risca, sem questionamentos, é a persistência. Persista. Exista no mundo com seu fazer artístico. Faça sua voz ser ouvida. A resposta positiva, se é que precisamos de uma para sermos legitimados enquanto artistas, pode vir de onde menos esperamos, e de maneiras que, de fato, preenchem nossa alma. É como mandar um filho para o mundo: sabemos que ele pode sofrer, pode se decepcionar, e tudo isso faz parte da dinâmica da vida. Porque ele também pode se encantar, compartilhar, dividir, fundar, espalhar sementes. 


Portanto, vamos tomar cuidado com o discurso do perfeccionismo, dos seres ressentidos que estão engessados em fórmulas esdrúxulas e limitantes, e que por isso querem nos enredar nessa teia perigosa que só gera frustração e isolamento. Volto a dizer: utilizem as ferramentas, estão aí pra isso. Se aprimorem, absorvam conhecimento, pois todo conhecimento é uma experiência, e toda experiência é uma transformação interior. Mas vamos cuidar muito mais da nossa poética pessoal, daquilo que urge e precisa ser dito, sem que haja censores (internos e externos), sem que haja restrições absurdas. 


Porque sou boa o suficiente pra mim, sou boa o bastante para dizer aquilo que preciso dizer, da maneira como consigo dizer naquele momento. E é isso que está, efetivamente, pronto.

07/04/2020

Arte contra o abandono

                Aconteceu no primeiro dia do Curso Arte e Multimídia, oferecido pela Secretaria Estadual de Educação, quando eu era professora de Sociologia da rede Estadual (2013).

Eu estava empolgada, porque sou fascinada pelo universo da arte: suas possibilidades e potencialidade, e todas as suas linguagens.

                Num determinado momento, o professor nos orientou a criar uma xilogravura. O primeiro passo é a matriz, o desenho. Como referência, ele nos mostrou algumas imagens de arte indígena e africana. Foi quando constatei, mais uma vez, só que de maneira muito mais intensa, que não sei desenhar. Não possuo sequer coordenação motora para criar uma forma geométrica. Para usar um estilete.

                Fui tomada por um constrangimento imenso, porém silencioso. Inúmeras sensações me invadiram. Em instantes, voltei a ser a aluna no termo radical da palavra, sem-luz, inadequada no meio de tantos professores de Arte, assombrada por uma voz escandalosa: não-consigo-não-posso-o-desenho-não-vai-sair!!! Eu estava sentada na carteira da minha antiga escola municipal, torcendo para que a aula terminasse logo, me livrando da tortura do não saber.

Foi como se não houvesse passado anos e anos entre aquela aluna e a adulta que sou agora, é o que as lembranças ruins fazem com a gente, quando não as elaboramos: ressurgem, cruas, inteiras, espinhosas.

                Voltei ao presente, respirei fundo e tentei fazer o tal desenho. Porque me lembrei que, diante das dificuldades escolares, eu continuava tentando, às vezes com mais tenacidade, às vezes por um reflexo cansado. Tentei, mas não consegui. E outras lembranças vieram, trazendo um questionamento mais sensato: onde estava o buraco em minha educação formal, no que se referia especificamente ao desenvolvimento das mínimas habilidades artísticas?

Isso me levou a uma das minhas professoras de Arte, por meio de imagens embaçadas, mas minha memória me deu de presente exatamente aquilo que eu precisava para refletir. E transpor.   

                Não me lembro muito dela. Sequer do nome. Márcia? Talvez. Era jovem. E entediada. Impaciente. Apática. Olhava o tempo todo para seu relógio, provavelmente desejando estar longe dali, de nós. Antes de cada atividade, tínhamos que fazer a margem nas folhas do caderno de desenho, o que, pra mim, era uma luta constante para conseguir a linha matematicamente perfeitamente reta, e essa luta seria menos sangrenta se, na época, eu tivesse condições de entender que, pra mim, o mundo jamais seria linear.

E o que mais? Geometria. Sim, geometria. Quadrados e círculos e retângulos e triângulos, quadrados e círculos e retângulos e triângulos, quadrados e círculos e retângulos e triângulos. Creio que ela os corrigia, não sei exatamente com qual critério. Usava uma régua? E quando tivemos que criar sombras sobre as tais formas geométricas, meus desenhos saíam borrados. 

                Não vou entrar na importantíssima e urgente discussão sobre os princípios equivocados que norteavam (e ainda norteiam) o ensino de Arte nas escolas, pois esse não é o tema deste texto. Sobrevivemos à experiência escolar com feridas e cicatrizes; alguns as atenuam, outros as trancam. Jamais tive a pretensão de me tornar uma desenhista, e não creio que essa seja a função da escola. A função da escola, no que se refere à Arte, é oferecer aos alunos a possibilidade de criação, independente do resultado. Afinal, o que é um desenho bonito? Feio? A função da escola é inundar o imaginário das crianças e jovens de cores, formas, linguagens, oferecer aquilo que provoca, que choca, acalenta, revolta, sacode a zona de conforto do olhar estético de cada um (e de seu olhar sobre o mundo).

A arte precisa existir por si mesma, a princípio. A arte existe, respira, transforma, agrega, soma, confunde e faz nascer no momento em que um ser inteiro está envolvido em sua criação, fazendo com que sua poética pessoal seja expandida, adquira corpo, vida. E é aí que está o meu buraco. Minha professora entediada não possuía a generosidade necessária de quem ensina (ensinar é oferecer bifurcações), não nos apresentou nenhuma música, nenhuma obra de algum artista, nenhuma poesia, nenhuma fotografia, nenhuma escultura, nenhum romance, nenhuma instalação, não sugeriu nenhum passeio, nenhuma exposição, nenhum, nenhuma, nenhum, nenhuma…

                 No entanto, posso afirmar que minha paixão pela expressão humana venceu o terreno árido daquilo que não me foi apresentado pela escola. Faço arte quando escrevo e fotografo. Muito do que sou e de como sinto (tudo?) devo às minhas referências artísticas. Tive outros professores mais generosos, que contribuíram muito para a construção dessas referências, mantendo minha curiosidade reluzente. Porque, às vezes, a curiosidade prevalece e o ser se reinventa.

Mas não deixo de pensar em quantas mentes que passaram pela professora entediada fecharam-se para esse universo, e o resultado disso é, principalmente, a proliferação de uma sociedade feita de pessoas insensíveis, primeiramente a si mesmas.

Há um pernicioso abandono cometido pelas instituições escolares quando não alimentam a subjetividade de seus alunos. Um abandono/ferida aberta que mergulha o ser na certeza de que não é capaz de criar.

E este não-criar é o que o faz desistir de acalentar, contornar e realizar seus desejos.

28/02/2015