A artista submersa

Você conhece alguém que desenvolve alguma linguagem artística em segredo? Provavelmente, tem outra profissão, e a arte é uma atividade secundária, como um hobby?

(Essa pessoa pode ser você).

Quando comecei a escrever, na adolescência, não sabia por quê. As palavras simplesmente saíam aos montes. Eu era intuitiva e não técnica. Escrever era necessidade de existir, respirar.

Eu sabia que poderia ser uma profissão, um modo de estar no mundo. Mas não tinha a coragem necessária pra materializar. Pra ser quem eu era.

Escolhi a educação. Me entreguei com ética, responsabilidade, paixão. Ser educadora foi, pra mim, uma obra de arte, não porque eu era excelente (cometi erros), mas porque acreditava no que fazia.

Mas eu tinha um amante secreto: a escrita.

Entre corrigir trabalhos e preparar aulas, me encontrava com ele e produzia. Por anos, fiquei entretida com romances, modelando arquitetura de personagens, traçando jornadas. Sonhava com o momento em que eles criariam vida.

Porém o medo me paralisava. Medo de ser rejeitada, de me desnudar por meio da arte, não saber se o que eu escrevia era bom. Medo, principalmente, de consolidar minha verdadeira identidade, tirar meu amante do armário e assumir a relação.

O resultado? Tristeza, angústia, a sensação de que eu não estava me realizando plenamente. Um vazio permanente, que nada preenchia.

Eu espiava editais e concursos. Quase me inscrevia, mas a coragem fugia: ano que vem, com certeza. Minha escrita aparecia ocasionalmente. Eu tinha meu blog, postava nas redes, mas parava. Então, eu era uma artista submersa que espalhava fagulhas da minha arte, alguns lampejos. Emergia um pouco.

O que me fez querer atingir a superfície foi uma depressão, em 2022. Não foi extremamente grave, mas debilitante. Me afastei do mundo, abandonei projetos (eu era presente nas redes, gerenciava comunidades, projetos fotográficos, debatia, propunha).

A escrita me fez emergir, como se uma voz dissesse: quer diluir essa tristeza e continuar? Escreva. O caminho é se voltar pra si mesma. É ser você.

Em setembro do ano passado, eu tinha dois volumes prontos sobre o apartheid. Foram dois anos de pesquisa histórica e um desejo imenso de publicar. Comecei a pesquisar editoras, conhecer o mercado editorial, e o que descobri renderia outro texto.

Em resumo, eu não me reconheci em nenhuma opção. Era o momento de existir no mundo, mas eu não sabia “que roupa usar”.

Foi quando A garota napolitana apareceu. Nina sussurrou sua história em meu ouvido, me pediu pra escrevê-la e empurrou os romances prontos sem delicadeza.

Sem saber exatamente onde aquilo ia dar, obedeci. Um tempo depois, entendi: eu precisava falar sobre a dor feminina. Sobre nossa luta silenciosa contra sistemas opressores, os traumas que sofremos e não revelamos, e que modelam nossa vida adulta.

Precisava, também, mostrar que a vida não é feita apenas de sofrimento. Que pessoas machucadas tentam, avançam, desejam, travam batalhas contra e a favor da cura, se aproximam e se afastam dela.

A vida é feita de longos e complexos subtextos, silêncios que carregam nossas sombras e nossas verdades. Muito do que somos está nas entrelinhas. No que não é dito nem mostrado. Na auto sabotagem, mas também na ousadia que emerge de vez em quando e oferta um caminho.

Nina varreu todas as minhas hesitações, e me ofereceu uma missão: conduzi-la até os leitores.

Não sei exatamente qual é seu objetivo. Ela nunca me contou. Há uma magia que acontece entre leitor e personagem, uma cumplicidade que costura sentidos e afetos.

Por tudo isso, entendi que não poderia mais ser uma artista submersa.

Aliás, não queria mais.

Temerosa, inundada de dúvidas e e… se?, levei A garota napolitana para conhecer a luz do sol.

O que aconteceu depois?

Conto em outro texto.

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