A arte da brecha

Poesia é:

Respiro?

Fenda?

Beleza? Mesmo quando escancara as nuances da feiura?

Há poesia somente nas linhas, ou também em conversas, encontros, imagens, memórias?

Há poesia no riso?

Na recusa?

Na brecha?

Gosto da poesia do contar.

Quando algo nos afeta, contamos para quem amamos. Quando vivemos uma experiência, queremos cumplicidade, olhares curiosos, o contar o que foi contado (que é uma maneira de existir).

Em minha infância, eu acompanhava minha avó Assunta em suas visitas às amigas. Lembro da mesa servida, do cheiro de café e bolo, e das conversas adultas, que eu não compreendia. E não precisava. porque eu captava os tons das vozes, olhares que eram capítulos inteiros, silêncios que encostavam em segredos. E eu era abraçada por um difuso e agradável sentimento de pertencer.

Mais tarde, os livros me presentearam com um manancial inesgotável de conversas. Um deles, talvez o primeiro, era sobre um burrinho que viajou sozinho para conhecer o horizonte.

Por acaso, o sonho dele ficou sedimentado nos ossos de quem sou: quais horizontes eu desejaria desbravar? Como?

Em meus ossos, há também o fascínio pela alquimia da ficção: e se eu conversasse com o burrinho? E se ele me levasse para outro horizonte?

E se eu contasse histórias também?

A garota napolitana nasceu dessa brecha entre Nina, a protagonista, e eu.

Me conta, qual é a sua brecha?

Deixe um comentário